quinta-feira, 8 de setembro de 2011

a lojinha de exposições

Havia um sujeito que tinha, a muito custo, juntado dinheiro para comprar uma pequena lojinha num lado pobre do centro da cidade. Como grande apreciador das artes plásticas, decidiu que um dia teria um espaço só seu para expor algumas obras de artistas em início de carreira. E assim se deu, mas o espaço que seu salário de funcionário público lhe permitiu alugar era pequeno demais. Decidiu então que isso não seria impedimento para seu sonho se realizar. Passou semanas tentando pensar numa solução, até que finalmente decidiu. Exibiria uma obra por vez, no centro da sala, que era perfeitamente quadrada. Ligou para um amigo seu e pediu emprestada uma de suas esculturas abstratas. Comprou um pedestal de segunda mão e colocou a peça sobre ele, bem no meio da sala. Sentou num canto e ficou olhando fixo para aquilo. Não se sentiu seguro de expor daquele jeito, não sabia se era pela peça ou pelo lugar que ela ocupava, ou mesmo por qualquer outro motivo, simplesmente não achou que estava bom o suficiente. Resolveu experimentar. Saiu e comprou uma peça velha num antiquário próximo. Colocou sobre o pedestal e retomou seu ritual de contemplação, desta vez era o pedestal que não lhe agradava. Saiu novamente para comprar outro tipo, um mais discreto, com perfil mais fino. Montou a coisa no meio da sala e pronto. De novo, não lhe agradou. Achou que pudesse ser efeito da iluminação e em razão disso passou quase um mês experimentando novas lâmpadas e cores da parede. Não era nada daquilo. Resolveu que o problema era a obra, que quando encontrasse a peça certa tudo se encaixaria. Ligou para outro conhecido, colocou sua peça no meio da sala e nada. E a coisa seguiu assim, mês após mês. Enquanto isso, as peças que já haviam sido testadas ficavam largadas nos cantos, já quase não havia espaço para circular. E ele foi cansando. Já abria muito esporadicamente seu espaço para novas experimentações. Ninguém, senão ele, havia pisado lá dentro. Nenhuma obra havia sido exposta. Seu salário ia quase todo para manter aquilo, aquela idéia já começava a perder o sentido. Um dia, ao visitar a loja para recolher as contas que o carteiro jogava por debaixo da porta de ferro, resolveu se sentar, com as costas apoiadas no pedestal que se encontrava já bem empoeirado no centro da sala. Pelas paredes, amontoados de peças de artista conhecidos dele, outro tanto de peças que comprara em brechós e similares. Já quase não se via parede. A porta de vidro que dava pra rua de repente se fechou, empurrada por uma súbita rajada de vento, típica do centro da cidade. O sol que entrava de frente e batia no seu rosto, começou a refletir sua imagem do lado de dentro da porta. Hipnotizado pela imagem de si, contraposta ao muro do outro lado da travessa, com todos aqueles objetos ao seu redor, ele se levantou, tirou a poeira da bunda calça e fez uma faxina geral, tirando o pó de tudo, mas deixando tudo no mesmo lugar. A exposição estava pronta. Finalmente descobrira. O centro da sala não era pra expor, mas pra circular. Enviou os convites para a semana seguinte. Quase ninguém veio, quase ninguém vinha. De tempos em tempos ele se sentava no meio da sala, fechava a porta de vidro e se observava no reflexo que sempre se desenhava do lado de dentro. Seu salário nunca aumentou e a, agora, sala de exposições, nunca mais fechou. Ele também nunca se ressentiu. Assim foi, até o fim de sua vida. Quando ali, naquele mesmo lugar, passou a funcionar uma lojinha de um e noventa e nove.