quarta-feira, 29 de junho de 2011

das suspeitas confirmadas por lágrimas

Meu corpo sempre tem uma resposta pra tudo. Seja pela pereba que aparece no meu braço quando estou esquecendo que às vezes eu mesmo me contrario, seja pelas dores nas costas que me dizem que eu não estou tão tranquilo assim. Meu corpo é um cachorro, ou uma criança, diz sem dizer. Descobri isso ontem à noite, antes de dormir. Nem atleta nem intelectual, brinco de ser os dois de vez em quando. Ontem brinquei de ser atleta. Corri um pouquinho num parque perto de casa. Cheguei satisfeito, como quase sempre me sinto depois de botar o corpo pra pensar. Tomei um banho frio e comi uma sopa decente, de feijão com legumes. Minha cabeça muitas vezes é uma governanta muitíssimo filha da puta. Digo isso porque seus excessos de autoritarismo pedante me esgotam, me criam uma penca de problemas que não tem qualquer pé na vida prática, mas por consequência acabam por a comprometer decisivamente. Mas como todo tirano tem seu rabo preso, decidi investigar os pontos fracos da moral judiciosa de minha cabeça em seus episódios mais superegóicos. Muito bem, nem foi preciso tanto esforço assim. Flagrei-a logo de cara inventando sonhos ridículamente impossíveis, de todas as sortes, onde eu seria o grande realizador de um grande feito e pelo mundo inteiro seria reconhecido por isso, com isso eu viveria cercado de glórias, confetes e tudo mais que fosse expressão da reafirmação de minhas virtudes. Pois bem, sabendo, como qualquer mané que tenha passado um tempo mínimo entre os mortais presentes sobre esse planeta, que ninguém é isso, parei e lhe fiz a acusação com o dedo em riste. Minha consciência, agora posta contra si própria e em minoria, já que meu corpo respaldava a iniciativa, silenciou. Continuei e disse a ela que agora tudo era claro, toda sua argumentação elaboradíssima e sem nenhum fundamento afetivo não era outra coisa senão a pura expressão de suas limitações, e que seu erro foi ter tentado me convencer por tanto tempo de que era ela a dona da bendita razão, e que tudo mais era falacioso, incompleto, fajuto ou bruto. Me contive por um minuto ao notar o improvável, talvez até então impossível de se imaginar. Em seu rosto normalmente arguto e preciso, algo emergia sem precedentes, algo que ali nunca havia se manifestado antes. Uma lágrima. Minha consciência moral chorava. Eu parei, olhei fundo nos seus olhos e também chorei. Nos abraçamos até que ela retornasse ao meu peito, se fundindo novamente a mim. Mas antes que a simbiose se completasse, dei-lhe minhas últimas palavras, desta vez de modo sereno, como um pai que aconselha um filho redimido. Disse-lhe assim, de hoje em diante, nunca mais quero ver você andando sozinha.

Um comentário: