sábado, 2 de julho de 2011

Cartas ao mundo 2.a parte

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Viajei bastante pensando na história dos “Dados”, que aborda não só as idéias de escolha/ possibilidade e projeto na filosofia do Sartre, mas coloca em questão também o tema do amor, que foi o que incomodou a companheira inseparável do nosso amigo filósofo. Daí eu passei a me indagar, afinal de contas, quem foi o grande amor da vida de Simone? Sartre ou Algren? É o amor a soma de expectativas e “lembranças e esperanças” ou uma existência, repleta de obstáculos, conflitos e contradições? Isso me trouxe mais
uma luz para compreensão do cenário de “Os Dados”: são dois personagens que vivem realidades diferentes – um proletário, Pièrre e uma burguesa, Eva. Enquanto vivos, tinham em comum o mesmo locus social, mas jamais iriam reparar um no outro por pertencerem a diferentes classes. No entanto, a possibilidade de se encontrarem e se amarem estava no além, além-mundo – aquém da existência, da realidade concreta da vida, como mostra a história. A tragédia do assassinato, que para ambos esclareceu a verdade por trás dos
acontecimentos, abriu caminho para a sorte do amor, um novo possível.

Cada um já tinha dado suas cartas e feitos suas apostas – Eva pela fidelidade cega ao marido, Pièrre pela crença convicta do sucesso do golpe, eram projetos que estavam irremediavelmente perdidos.

Entretanto, tiveram uma chance para provar o valor desse amor, voltando à vida, à existência, mas o que falou mais alto não foi o amor, mas o projeto inacabado de cada um. Para Pierre, a revolução política, como possibilidade concreta de escrever uma história diferente para a classe dominada. Para Eva, o acerto de contas com seu marido, um homem sem escrúpulos capaz de assassiná-la para ficar com sua herança. Os dados foram lançados e Eva e Pièrre estavam lançados à sorte, sorte de escolherem o seu próprio destino: o do amor possível ou do acerto de contas com seus algozes.

Mas o que há de comum no cenário dos “Dados”, Sartre e o romance de Simone e Algren?
A começar pela idéia de um “amor impossível”, bem própria do romantismo, acredito que foi o que estimulou Simone todos esses anos e não é à toa que a história de Sartre (Os Dados estão lançados) a incomodava. Por mais que Simone se declarasse essencialmente apaixonada e viva para o amor de Algren, ela se achava em franca contradição, pois permanecia ao lado de Sartre, com quem compartilhava já de longa data pensamentos e ideais na cena francesa. Para amar Algren, Simone tinha que “voar” literalmente de avião, para bem longe – Chicago, E.U.A, para viver a possibilidade do impossível, de amar o
diferente, mas é claro que não podia deixar de refletir sobre tudo isso,

“Acredito que conseguiremos, mas não será fácil. Nelson eu o amo, mas será que mereço seu amor, já que não lhe dou a minha vida? Eu tentei lhe explicar porque não posso dá-la. Você compreende? Não guarda ressentimentos? Não guardará nunca? Você acreditará sempre, apesar disso, que é realmente amor o que sinto por você? Talvez não devesse levantar estas questões, me faz mal exprimi-las tão brutalmente. Mas,
mesmo assim, não posso evitar, é a mim mesma que coloco essas questões..”

Continua no próximo episódio In: Living in Oblivion...

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