terça-feira, 12 de julho de 2011

Cartas ao mundo - Final

          A grande questão colocada por Sartre no cenário de “Os Dados”, para mim e que se encontra com a relação à distância de Simone com Algren é esta: somente pela existência que podemos verificar a possibilidade da realização concreta e efetiva de um amor.
Mas não era isso que defendia a comentarista; Marina Colassanti dizia que naquelas cartas, éramos então testemunhas de uma outra Simone: carinhosa, meiga e apaixonada, diferente da imagem austera, séria, sempre de tailler e cabelos presos como costumava ser vista em público.  E que pelas expressões de amor que utilizava nas cartas, revelava quem era seu verdadeiro amor: Algren.
No entanto, o que pesava mais na vida de Simone era Sartre e tudo que essa relação entre os dois envolvia: os hábitos e costumes de sua pátria – a França, o círculo intelectual, a militância política em prol da emancipação feminina... enfim, refletindo todas essas coisas, acabei chegando à essa conclusão, que passou pelo exame da minha própria vida, pois eu alimentei grandes paixões que se sustentaram pela impossibilidade de concretização, mas os amores que vivi foi que me ensinaram o que é um relacionamento.  As suspeitas de Simone estavam certas, pois a relação com Algren não resistiu, por inúmeros fatores que o exame de suas correspondências podem revelar.  As cartas de Algren para Simone estão, segundo informações, num Museu ou Biblioteca nos E.U.A, protegidos pelos agentes do escritor, podendo ser apenas consultadas.
No final das contas, fico achando que Simone amou Sartre porque de fato viveu ao seu lado, relacionamento este que não se resumia ao amor romântico e idealizado do “além”, mas ao amor possível dentro de um mundo possível, de acordo com a idéia de “Os Dados”.
            Bom, o que era pra ser uma mensagem acabou virando uma carta.  Mas eu queria dividir com vocês essa minha “viagem” que aconteceu por acaso..


Conclusão


Creio que o amor possível é o amor que escolhemos, que decidimos tê-lo no nosso viver cotidiano, seja ele romântico ou de afinidades intelectuais, ou outra categoria qualquer. O que interessa, realmente, é o fato de decidir que é aquilo que quero presente no meu viver cotidiano, não um sonho, uma quimera, uma utopia, mas o de fato, o concreto. E isto se dá por nosso próprio desejo. Abrir mão de uma situação por outra, é decidir que você quer uma outra coisa no lugar daquela, é desejar e concretizar o desejo. De certa forma, acho que Simone nunca esteve disposta a viver este amor com Algren, pois já havia decidido, de antemão, que Sartre jamais sairia de sua vida.
    Na peça "Os Dados...", vale lembrar que Sartre, no seu texto, decide que ambos fracassariam no amor, amor que talvez ele mesmo não acreditasse, não enquanto filósofo, mas enquanto pessoa, enquanto existência. Creio também que Simone, exatamente por    vê-lo concretamente como impossível, em função da sua ligação com Sartre e da qual ela jamais abriria mão, ele se tornava para ela algo a ser buscado, alcançado, mas somente idealmente - como possibilidade de viver um sonho. Sua disposição para transformar esse amor numa escolha, escolha essa que surge como mares divididos entre um antes e um depois, nunca existiu, pois ela, provavelmente, iniciou seu laço amoroso com Algren já tendo a certeza de que jamais abriria mão de Sartre.
    Ao trecho da carta já citada de Simone, abaixo contraponho uma carta de Nelson Algren, extraída do livro “Todos os Homens são mortais” de Simone de Beauvoir:

“Acredito que conseguiremos, mas não será fácil. Nelson eu o amo, mas será que mereço seu amor, já que não lhe dou a minha vida? Eu tentei lhe explicar porque não posso dá-la. Você compreende? Não guarda ressentimentos? Não guardará nunca? Você acreditará sempre, apesar disso, que é realmente amor o que sinto por você? Talvez não devesse levantar estas questões, me faz mal exprimi-las tão brutalmente. Mas, mesmo assim, não posso evitar, é a mim mesma que coloco essas questões.." (Simone de Beauvoir)

"Podemos conservar sentimentos por alguém, mas não mais aceitar que eles comandem e transtornem toda a nossa existência. Amar uma mulher que não nos pertence, que faz com que as outras coisas e outras pessoas passem na nossa frente, sem nunca nos colocar em primeiro lugar, não é aceitável. Não lamento nenhum dos momentos que tivemos juntos. Mas desejo agora um outro tipo de vida, com uma mulher e uma casa minhas... A decepção que senti há três anos, quando comecei a perceber que sua vida pertencia a Paris e a Sartre, agora está velha e embaçada. O que tentei fazer depois foi retomar a minha vida de você. Tenho muito apreço pela minha vida, não me agrada que ela pertença a uma pessoa tão distante, alguém que vejo apenas algumas semanas por ano..." (Nelson Algren)

Quem foi Simone de Beauvoir? Sua essência de mulher romântica, devota e apaixonada ou sua existência enquanto intelectual engajada com as questões de sua época? Quem ela amava de fato? Sartre ou Algren? A análise de sua personalidade a partir das cartas revela uma espécie de contradição com os ideais que ela defendia ao lado de Sartre. No entanto, não se trata de uma resposta simples. 
Considerando os pressupostos do existencialismo, a “verdadeira” mulher era aquela que era revelada por sua existência concreta, cotidiana.  Essa imagem cotidiana era aquela que tínhamos conhecimento pela sua trajetória intelectual ao lado de Sartre.  O livro “Um amor transatlântico” é composto por 304 cartas enviadas pela escritora francesa entre 1947, ano em que foi apresentada ao colega americano Nelson Algren por uma amiga comum, até 1964, quando foi deixada por ele. Estas são testemunhas de uma intensa e duradoura paixão, ainda que platônica.
O romance emblemático “Os dados estão lançados” e sua fascinante narrativa de um casal que se apaixona no além-vida e tem 24 horas para viver esse amor, mas fracassa por conta das escolhas aparece para Simone como um fator que causa incômodo.  Incomodo porque ela se reconhece nessa estória.  Ela de alguma forma intuiu que aquilo dizia respeito a ela, quando expressou “É comovente e me faz pensar em você e em mim. Nós nos amamos através de lembranças e esperanças, através das distâncias e das cartas. Conseguiremos fazer deste amor um sentimento humano, vivo e feliz? É preciso.” Como diz a famosa expressão de Oscar Wilde “a vida imita a arte”, nossa personagem fracassou no amor impossível, mas foi bem sucedida no seu projeto de vida ao lado de Sartre.  Existir é igualmente, estar situado em um ponto do tempo e do espaço.  E o amor também é colocado à prova por essa mesma razão pelo existencialismo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário